Bambu


   A maior parte das pessoas conhece e convive com a gramínea chamada de bambu desde a infância, usando-a na fabricação de papagaios, flautas, gaiolas, arapucas e outros brinquedos, mas quase ninguém sabe de suas muitas outras utilidades. O desconhecimento de suas características botânicas, agrícolas, agronômicas e tecnológicas explica o fato de o bambu não ser utilizado no Brasil em todo o seu potencial.
Bambu   Para cada uso há uma espécie mais adequada. Existem 45 gêneros e mais de mil espécies de bambu em todo o mundo, a maioria delas originária da Ásia, e as demais da América, Oceania e África. Só no continente europeu não há espécies nativas. No Brasil, as espécies mais comuns são a Bambusa vulgaris, a Bambusa vulgaris variedade vittata. a Bambusa tuldoides, a Dendrocala MUS giganleus e a Phyllostachys sp., todas de origem asiática, trazidas pelos imigrantes portugueses, e que se difundiram facilmente. As espécies nativas do Brasil são conhecidas por taquara, taboca, jativoca, taquaruçu, bambu-de-espinho, taboca-açu, conforme a região de ocorrência. Em geral, requerem condições especiais de crescimento, tais como ambiente de mata. Diferentemente dos demais grupos vegetais, os sistemas de classificação do bambu não se baseiam em suas características florais, já que ele raramente floresce. Entre suas características mais constantes está a forma de crescimento. De acordo com ela, o bambu é classificado em entouceirante ou cespitoso (espécies que crescem sob a forma de touceiras relativamente densas, desenvolvendo-se por meio de rizomas curtos, grossos e de crescimento limitado, que sempre afloram à superfície para originar um novo colmo) e alastrante ou rasteiro tas plantas são formadas mais ou menos abertas, estendendo-se lateralmente com rapidez graças ao desenvolvimento dos rizomas, compridos. delgados e de crescimento ilimitado). O Projeto Radam mostrou a ocorrência natural de bambu no Acre, em associação com a floresta nativa, com área estimada de 85 000 km2. Ocorrências em menor escala foram observadas em toda a região amazônica, Maranhão, Pará etc. Na Asia, desde os tempos pré históricos,
   O bambu tem sido fonte de muitas aplicações. Dele, os asiáticos obtêm alimento,vestuário, moradia, medicamentos, além de outras aplicações domésticas, rurais e industriais. Foi utilizado em grandes invenções como as pontes suspensas, cúpulas de templos, avião, helicóptero e motor a explosão. Tanto no campo da energia mecânica e elétrica como na obtenção de combustíveis, o bambu aparece com freqüência. Grandes rodas hidráulicas e canaletas feitas de bambu são utilizadas para mover máquinas e transportar a água verticalmente. O carvão obtido de certas espécies é utilizado para produzir medicamentos e também baterias elétricas. Nas primeiras bobinas elétricas, Thomas A. Edson, seu inventor utilizou filamentos carbonizados de bambu. Os brotos de bambu são usados como alimento, inclusive no Brasil, sendo consumidos cozidos ou em forma de conserva. Como matériaprima para a fabricação de papel e celulose tem vantagens em relação à madeira e outras fibrosas, por ter fibra longa. de rápido crescimento, bom rendimento e por não precisar de replantio após cada corte. A polpa (celulose) é utilizada na fabricação de raion. com a qual se produz tecido de excelente qualidade. No Brasil, o bambu é pouco utilizado como matéria-prima para papel, embora haja fábricas que o aproveitam com esse fim na Bahia. Pernambuco e Maranhão. O Instituto Agronômico de Campinas (SP), por meio da Seção de Plantas Fibrosas, há vários anos vem desenvolvendo pesquisas agrícolas e tecnológicas com o bambu.

Botânica
   O bambu é uma subfamília das gramíneas e, como sua importância econômica para a produção de celulose é recente, nunca foi detalhadamente estudado no Brasil. Os gêneros nativos do país compreendem entre outros, a Arundinaria , com dezesseis espécies mais freqüentes no Rio de Janeiro e Minas Gerais; a Streptogvne beauv.; a Phvllostachvs sieb. et za cc., cuja espécie de melhor rendimento na extração de polpa celulósica é a P. bambusoides sieb. etzace.; a Chusqueakunth, com 22 espécies distribuídas sobretudo no Rio de Janeiro eb em Minas Gerais; a Merostaehys spreng, com dezesseis espécies brasileiras, quase todas nativas de Minas Gerais e economicamente importantes para a indústria; o gênero Bambusa reis, o que é o mais importante do ponto de vista do uso na indústria de celulose, composto só de espécies originárias do Oriente e que tem no Brasil uma representante importada, a B. vulgaris.
Potencial de exploração e variedades
    No Brasil, o bambu ainda não é usado intensivamente como matéria-prima industrial. Do ponto de vista agrícola, a cultura é economicamente compensadora, por ser perene e produzir colmos assexuadamente, ano após ano, sem necessidade de replantio, com grande rendimento anual por unidade de área. Outra vantagem é a velocidade de desenvolvimento dos colmos, que só crescem em altura. Em espécies tropicais, os colmos atingem sua dimensão máxima com aproximadamente seis meses. O sistema radicular do bambu, fasciculado extenso e superficial, é eficiente no combate à erosão dos solos. E a cultura pode ser feita em terrenos de topografia acidentada, inadequados à produção de alimentos, por exemplo. Do ponto de vista industrial, os colmos de bambu, basicamente constituídos por feixes fibrovasculares circundados por tecido parenquimatoso uniforme e ricos em substâncias de reserva, podem ser utilizados como matéria-prima para celulose e papel, pelo aproveitamento do tecido fibroso; álcool etílico, pela fermentação dos açúcares obtidos pela hidrólise dos carboidratos; amido, presente nas células do tecido parenquimatoso; alimento, pelo aproveitamento de brotos. Por apresentar altos teores de amido e celulose em sua composição e não requerer cuidados especiais para cultivo, o bambu é tido como promissor na produção de etanol.
Teoricamente, de 70 a 85% do colmo, constituído por amido e celulose, pode ser transformado em álcool, com rendimento provável de 250 a 380 //t de bambu. Considerando-se uma produção de bambu da ordem de 20 t/ha/ano (base seca), com eficiência na sacarificação e fermentação de 80%, pode-se esperar uma produção de álcool etílico de 5 440 //ha/ano. Essa produção é maior do que as obtidas com cana-de-açúcar (3 016), mandioca (2 160), sorgo (1 925), batata-doce (1 875) e babaçu (800). 
   O broto de algumas espécies, com 30 a 50 cm de comprimento, é extensivamente utilizado na cozinha chinesa. O Brasil, por seu clima quente e úmido, tem enormes possibilidades de entrar na produção desse tipo de alimento para exportar, principalmente para os Estados Unidos. A exploração conjunta do bambu como fonte de celulose e amido é viável, aumentando o rendimento industrial e as possibilidades de exploração. Na construção, o bambu vem ganhando importância como substituto do ferro na formação estrutural do concreto. Aspectos agrícolas — As melhores variedades, de acordo com a utilização do bambu, são as seguintes:

• Celulose — Bambusa vulgaris, D. giganteus, Phyllostachys bambusoides.
• Álcool — Bambusa vulgaris. Guadus flabellata.
• Alimentação — Dendrocalamus latiflorus, D. asper, D. giganteus, Phylloslaces bambusoides, Bambusa tuldoides.
• Construção — Guadus sp., Dendrocalamus giganteus, D. asper, Bambusa tuldoides, B. tulda, Phyllostachys sp.
• Ornamental — Thyrsostachys siamensis, Phyllostachys nigra, Phyllostachys
purpurara, Bambusa glacillis.

Fotos abaixo, clique para ampliar
Phyllostachys bambusoides
Phyllostachys bambusoides
Bambusa tuldoides
Bambusa tuldoides
Bambusa vulgaris - Bambu listrado
Bambusa vulgaris - Bambu listrado
Bambulsa tulda
Bambusa tulda
D. giganteus
D. giganteus
Dendrocalamus latiflorus - Bambu Chines
Dendrocalamus latiflorus - Bambu Chines
Phyllostachys nigra - Bambu negro
Phyllostachys nigra - Bambu negro
Thyrsostachys siamensis
Thyrsostachys siamensis
Clima e solo
  Como vegeta satisfatoriamente em regiões tropicais e subtropicais, o bambu é uma planta que se dá
bem no Brasil. A ocorrência de geadas é prejudicial à espécie, afetando seu desenvolvimento, queimando as folhas e matando Os brotos novos. Requer razoável teor de umidade, pois seu rápido desenvolvimento exige disponibilidade de água e elementos nutritivos. São mais indicados, portanto, os lugares abrigados do frio e de variações repentinas de temperatura, com chuvas de 1 200 a 1 800 mm anuais, mas que o solo não fique encharcado. Chuvas hem distribuídas e clima quente são o ideal.    O bambu requer solos profundos. férteis e úmidos, providos de boa drenagem. Solos leves, arenosos, são mais indicados que os argilosos e compactos.

Época de plantio 
   Início do período das chuvas.

Espaçamento
   Para bambus de grande porte, 10 x 5 m; para os de porte menor, em torno de 5 x 3 m. Para a produção de matéria-prima celulósica, utilizar maior densidade de plantio, com linhas contínuas espaçadas de 1 x 1 m ou 2 x 2 m.

Multiplicação 
   Por meio de mudas obtidas pelo desmembramento de touceiras ou pelo enraizamento de pedaços de colmos e gemas.

Combate à erosão 
   Plantio em nível.

Adubação e calagem 
   Em terrenos de fertilidade média, nem uma nem outra. Em culturas como a destinada para a colheita de brotos alimentares, fazer análise do solo e consultar as recomendações de fertilização. A adubação potássica é muito importante na formação dos brotos, assim como a adubação completa e a calagem nas explorações mais intensas.

Tratos culturais 
   Capinas manuais e mecânicas durante a formação. Podem-se fazer culturas intercalares com plantas anuais nos dois primeiros anos.

Pragas e doenças 
Broca do Bambu
   A principal praga é a broca do bambu (Rhinastus latisternus/ Rhinastus sternicornis), o controle pode ser feito primeiramente manualmente que consiste basicamente na remoção manual das pragas adultas localizadas nos caules das plantas e simultaneamente à destruição das larvas novas, que geralmente aparecem nos gomos furados. Se o controle manual não apresentar resultados pode-se optar pelo processo de combate químico, no qual é recomendável a orientação prévia de um técnico especializado, para evitar intoxicação, utilização de processo inadequado e até problemas mais graves como atentar contra a saúde de pessoas residentes nas proximidades ou transeuntes.
   A Coordenadoria de Pesquisa Agropecuária do Instituto Agronômico de Campinas – São Paulo indica como preparado químico para o controle da broca-do-bambu a solução química Lorsban, concentrado emulsionável a 48% (usar 1 ml por litro de água).
Caruncho-do-bambu 
   É considerada pelos especialistas como uma praga que ataca somente a planta cortada, inutilizando completamente seus caules. A Coordenadoria de Pesquisa Agropecuária do Instituto Agronômico de Campinas recomendava para o controle dessa praga uma solução de óleo diesel misturada com inseticidas atualmente de uso restrito pelo Receituário Agronômico, dada a sua toxidez, por isso, não deixe de consultar um agrônomo.
Seca-do-bambu 
   Causada por organismo pertencente à família Thelephoraceae, provoca o ressequimento dos caules e impede o desenvolvimento dos brotos novos. Tomentella é o gênero a que pertence o organismo causador da seca-do-bambu e que faz os brotos apodrecerem, impossibilitando a expansão natural da planta. O sintoma mais típico da moléstia é o crescimento farináceo branco-acinzentado, formado pelas basídias do fungo causador.
Medidas profiláticas 
   Essa moléstia ataca preferencialmente os brotos novos e seu controle é difícil. Uma das orientações é que se removam as folhas das touceiras portadoras de sinais da doença, e em seguida se proceda à aplicação de uma calda bordalesa.

Colheita
    De acordo com a finalidade de utilização. De quatro a cinco anos após o plantio, podem ser colhidos os colmos mais velhos. No caso de produção de brotos comestíveis, deixar de 10 a 25% dos colmos existentes e colher os demais, bem rentes ao rizoma, quando atingirem de 20 a 30 cm. Para produção de celulose e papel, realizar corte total rasante, após três anos de plantio, repetindo-os posteriormente.

Produção 
   Bastante variável, dependendo de espécie, solo, clima e tratos culturais. Geralmente, pode-se obter de 10 a 100 titia de colmos e de 2 a 10 t/ha de brotos. Com o tempo, forma-se embaixo do bambuzal uma camada de folhas secas, com perigo de incêndio. É aconselhável manter carreadores limpos entre os talhões para evitar propagação do fogo.
Uso na alimentação humana 
Broto de Bambu
Broto de Bambu
   O broto emerge do solo até à altura de 30 a 50 cm, e pode pesar de 135 g até mais de 5 kg, conforme a espécie. Uma das espécies mais usadas para alimentação é o Dendrocalamus giganteus, que pesa em média 375 g (cada broto). Essa espécie brota, nas condições do Estado de São Paulo, de janeiro a março. Outra espécie bastante utilizada em São Paulo é a Phyllostachys bambusoides, que brota de setembro a novembro. Para o consumidor doméstico, os brotos devem ser cortados. descascados, ter suas bainhas removidas, eliminando-se as partes mais rígidas, cortados em fatias e fervidos duas vezes, trocando-se a água. Cada fervura deve durar de 30 a 60 minutos, colocando-se uma colher de sal por litro de água e uma pitada de bicarbonato ou um pouquinho de vinagre. O broto de bambu pode ser usado como substituto do palmito ou do aspargo, em saladas, em. recheios de empadas ou refogado na manteiga.

Composição por 100 g 
    Broto: 28 calorias, 2,5 g de proteínas, 17 mg de cálcio, 47 mg de fósforo. 0,9 mg de ferro, 2
mmg de vitamina A, 0,11 mg de vitamina B1 , 0,09 mg de vitamina B2 e 9 mg de vitamina C.

Fonte: Eng. Agr. Antônio Luiz de Barros Salgado, chefe da Seção de Plantas
Fibrosas do IAC.
Blog PlantaSonya
Marco A. R. Pereira – Antonio L. Beraldo “Bambu de corpo e alma” – Canal6 Editora - 2008

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